terça-feira, 12 de setembro de 2017

Dona Emília e o tempo...

A vida até que tem alguns prazeres, mas na maioria do tempo são desconfortos, dores, frustrações e tristezas. O próprio tempo é assim, dificilmente está da forma como você queria.

Dona Emília olhava para trás e via nos longos e curtos 76 anos vividos muito dessa dualidade que é a vida. Amor e ódio, tolerância e intolerância, bonito e feio, calor e frio, gordo e magro, bom e mau, bem e mal...

Nas suas reflexões mais íntimas lembrava-se do aforismo shakespeareano. “Você diz que ama a chuva, mas você abre seu guarda-chuva quando chove. Você diz que ama o sol, mas você procura um ponto de sombra quando o sol brilha. Você diz que ama o vento, mas você fecha as janelas quando o vento sopra. É por isso que eu tenho medo. Você também diz que me ama”.

Dona Emília pensava no seu velho companheiro, que Deus recolhera havia 3 anos.

– Foi uma relação no mínimo amistosa – murmurava. “Seu Abdias”, como era conhecido no bairro, compartilhou e partilhou de tristezas e alegrias, de bons e maus momentos com Dona Emília, com quem foi casado por mais de 50 anos. Somado o tempo de namoro e noivado davam exatos 58 anos, três meses e 16 dias. Eles se conheceram num parque de diversões, na primavera de 1959.

Foi amor [ou paixão] a primeira vista.

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