A vida até que tem alguns prazeres, mas
na maioria do tempo são desconfortos, dores, frustrações e tristezas. O próprio
tempo é assim, dificilmente está da forma como você queria.
Dona Emília olhava para trás e via nos
longos e curtos 76 anos vividos muito dessa dualidade que é a vida. Amor e
ódio, tolerância e intolerância, bonito e feio, calor e frio, gordo e magro,
bom e mau, bem e mal...
Nas suas reflexões mais íntimas
lembrava-se do aforismo shakespeareano. “Você diz que ama a chuva, mas você
abre seu guarda-chuva quando chove. Você diz que ama o sol, mas você procura um
ponto de sombra quando o sol brilha. Você diz que ama o vento, mas você fecha
as janelas quando o vento sopra. É por isso que eu tenho medo. Você também diz que
me ama”.
Dona Emília pensava no seu velho
companheiro, que Deus recolhera havia 3 anos.
– Foi uma relação no mínimo amistosa –
murmurava. “Seu Abdias”, como era conhecido no bairro, compartilhou e partilhou
de tristezas e alegrias, de bons e maus momentos com Dona Emília, com quem foi
casado por mais de 50 anos. Somado o tempo de namoro e noivado davam exatos 58
anos, três meses e 16 dias. Eles se conheceram num parque de diversões, na
primavera de 1959.

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