terça-feira, 26 de setembro de 2017

Dona Emília acerca do destino

De novo na fila da farmácia – Dona Emília já tem 76 anos –, a simpática senhora de cabelos grisalhos ficou pasma com a frase que ouviu:

– O destino baralha as cartas, e nós jogamos.

Ela até acredita em destino, que tudo já está arranjado pela providência. O que há de vir, de acontecer, vai acontecer, pensava Dona Emília. – Mas por vontade de Deus, nunca das cartas.


sábado, 23 de setembro de 2017

Meu amor é Todo seu

Meu amor é denso
Simples
Composto

Pretérito
Meu amor é imperfeito
Será que existe Amor imperfeito?

Meu amor é adjetivo
Às vezes capaz
De modificar um substantivo

Meu amo é denso
Tenso
Extenso
 Esse é o meu amor

Meu amor é conexo
Às vezes [muitas vezes]
Desconexo

Meu amor é subordinado
Muitas vezes [in] subordinado

Não sei!
Meu amor é assim indisciplinado
Gramatical
 Labial
De estrutura compacta

 Meu amor não tem
Pronome
Não tem nome
Locução

Meu amor é disciplina
Oração
Coração

Meu amor é verbo
Meu amor é denso
Tenso

Meu amor é adjetivo
Subjetivo
Meu amor é
Matéria
Meu amor é
Espírito


 Meu amor é Todo seu

Meu amor é Todo seu

Meu amor é denso
Simples
Composto

Pretérito
Meu amor é imperfeito
Será que existe Amor imperfeito?

Meu amor é adjetivo
Às vezes capaz
De modificar um substantivo

Meu amo é denso
Tenso
Extenso
 Esse é o meu amor

Meu amor é conexo
Às vezes [muitas vezes]
Desconexo

Meu amor é subordinado
Muitas vezes [in] subordinado

Não sei!
Meu amor é assim indisciplinado
Gramatical
 Labial
De estrutura compacta

 Meu amor não tem
Pronome
Não tem nome
Locução

Meu amor é disciplina
Oração
Coração

Meu amor é verbo
Meu amor é denso
Tenso

Meu amor é adjetivo
Subjetivo
Meu amor é
Matéria
Meu amor é
Espírito

 Meu amor é Todo seu


quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Tecnologias avançam e impulsionam inclusão

O Brasil, como todos os países do mundo, possui uma grande parcela de sua população com algum tipo de deficiência. A Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2015 revelou que 6,2% da população brasileira têm algum tipo de deficiência e dentre esse universo, 3,6% dos pesquisados têm deficiência visual. O levantamento, feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em parceria com o Ministério da Saúde, apontou ainda que 16% dos deficientes visuais encontram algum tipo de dificuldade na hora de realizar atividades habituais como ir à escola, trabalhar e brincar.

Os avanços da tecnologia vêm, no entanto, quebrando paradigmas e melhorando a qualidade de vida dessa população. O reconhecimento social alcançado nos últimos anos tirou as pessoas com deficiência (PcD) da marginalidade, do ostracismo. A educação inclusiva ganhou legislação específica e virou realidade, conferindo protagonismo às pessoas com deficiência. E a tecnologia surgiu como parceira, como aliada dessa nova realidade, colaborando na construção do que podemos chamar em muitos casos, de um novo modelo social.

Especificamente no caso da pessoa com deficiência visual, do primeiro aparelho de Braille em 1852 para o DOSVOX atual, a tecnologia tem sido importante para que a inclusão e o reconhecimento social realmente aconteçam e o deficiente visual possa ver afirmada a sua cidadania. O técnico em assuntos educacionais do Instituto Benjamin Constant (IBC), José Francisco de Souza, falou em reportagem publicada pelo Globo Educação, sobre a importância do acesso aos programas de computador para a socialização dos deficientes visuais. Na oportunidade da reportagem, em 2011, ele trabalhava na capacitação de alunos no IBC – referência no Brasil em educação de deficientes visuais –, e disse que no tempo em que foi alfabetizado não havia as facilidades tecnológicas que existem hoje.

O DOSVOX, um dos programas preferidos de José Francisco, é utilizado numa sala de deficientes visuais na Escola Estadual José Conti, em Igaraçu do Tietê, no interior do Estado de São Paulo. O DOSVOX, desenvolvido no Núcleo de Computação Eletrônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) é um sistema que auxilia o deficiente visual a fazer uso de microcomputadores da linha PC, através do uso de sintetizador de voz. É um software que na avaliação de especialistas em educação inclusiva proporciona independência às pessoas com deficiência visual e isso os motiva nas suas diversas atividades, como na escola, no trabalho e até no dia a dia com outras pessoas.

Na reportagem Jovens criam tecnologias para acessibilidade”, que orienta essa atividade, a professora e pesquisadora Mônica Pereira dos Santos, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e membro da Associação Brasileira de Pesquisadores em Educação Especial, destaca a importância das novas tecnologias, mas chama a atenção para o fato de que a inclusão no caso de pessoas com deficiência “é assunto de culturas e políticas públicas, para além das práticas”. Para a pesquisadora, há a necessidade de uma mobilização da comunidade escolar no sentido de rever posturas e valores, e também a diminuição dos custos das ferramentas tecnológicas, para que fiquem acessíveis para as instituições e famílias que precisam adquirir esses produtos. Outro aspecto destacado pela pesquisadora Mônica Pereira é quanto à formação continuada de professores, considerada essencial para que “muitas tecnologias não emperrem nas salas de aula”.

Para a professora Jéssica Caroline Paes, da Escola Municipal João Tuschi, de Igaraçu do Tietê, apesar do avanço na legislação sobre inclusão verificada nos últimos anos e na produção de tecnologia específica, o caminho ainda é muito longo para que as pessoas com deficiência se sintam realmente incluídas. “Eu trabalho com deficiência intelectual e na Escola Estadual José Conti tem sala de deficiente auditivo e deficiente visual. Eles têm tudo adaptado, desde jogos, lousa e alfabeto em Braille, os computadores com DOSVOX, que conversam com o aluno com deficiência visual e os livros de áudio-descrição”, revelou.

Ao receber a visita de uma classe do quarto ano do ensino fundamental municipal, a professora, no entanto, percebeu certa dificuldade inicial no relacionamento dos alunos do fundamental com os alunos deficientes. “Na maioria das vezes, as crianças não sabiam como agir, não por preconceito, mas porque elas não têm isso, não estão acostumadas com essa interação”, afirmou.


Para Célia Magda Vernier, diretora da APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) de Igaraçu do Tietê, existe muita tecnologia disponível no mercado – programas, softwares e aplicativos – que podem ser utilizados no processo de educação dos alunos da entidade e na melhoria da qualidade de vida deles. No entanto, o alto custo dos produtos combinado com a situação econômica da entidade e das famílias dos alunos, não permite adquiri-los.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Dona Emília e o tempo...

A vida até que tem alguns prazeres, mas na maioria do tempo são desconfortos, dores, frustrações e tristezas. O próprio tempo é assim, dificilmente está da forma como você queria.

Dona Emília olhava para trás e via nos longos e curtos 76 anos vividos muito dessa dualidade que é a vida. Amor e ódio, tolerância e intolerância, bonito e feio, calor e frio, gordo e magro, bom e mau, bem e mal...

Nas suas reflexões mais íntimas lembrava-se do aforismo shakespeareano. “Você diz que ama a chuva, mas você abre seu guarda-chuva quando chove. Você diz que ama o sol, mas você procura um ponto de sombra quando o sol brilha. Você diz que ama o vento, mas você fecha as janelas quando o vento sopra. É por isso que eu tenho medo. Você também diz que me ama”.

Dona Emília pensava no seu velho companheiro, que Deus recolhera havia 3 anos.

– Foi uma relação no mínimo amistosa – murmurava. “Seu Abdias”, como era conhecido no bairro, compartilhou e partilhou de tristezas e alegrias, de bons e maus momentos com Dona Emília, com quem foi casado por mais de 50 anos. Somado o tempo de namoro e noivado davam exatos 58 anos, três meses e 16 dias. Eles se conheceram num parque de diversões, na primavera de 1959.

Foi amor [ou paixão] a primeira vista.

Dona Emília e a angústia

Dona Emília na fila da farmácia ouvia atenta a conversa do jovem com a psicóloga que esperava atendimento já no balcão.

– O que é angústia? – indagou o jovem.

Além de Dona Emília, outras pessoas que aguardavam atendimento passaram a prestar atenção na conversa. Estavam, como curiosos, esperando a resposta.

A doutora respondeu sem rodeios:

– Angústia é a mãe de todos os sentimentos. A angústia é a mãe de todos os comportamentos.

Como chegara a sua vez, a médica entrou pra conversar com o farmacêutico. O jovem que fizera a pergunta ficou sem entender. Da expressão do adolescente denotava-se sua perplexidade. – O que é angústia?

Dona Emília se lembrou que lera a respeito do assunto. O psicanalista francês Jacques Lacan definia a angústia como a sensação de que falta alguma coisa. Existe um objeto que está perdido, e que você não sabe qual é. Você sai em busca desse objeto perdido e esse movimento de deslocamento de coisas – eu vou buscando, buscando, buscando, construindo –, é o que formou a nossa cultura.

Isso tudo que nós somos e temos. A política, as regras, as leis, a psicologia, e a filosofia até hoje estão atrás desse objeto perdido. E é um objeto que nós não vamos encontrar.

Dona Emília pensou, pensou e achou melhor ficar quietinha na fila. E foi o que fez.