O Brasil, como todos os países do mundo, possui uma grande
parcela de sua população com algum tipo de deficiência. A Pesquisa Nacional de
Saúde (PNS) de 2015 revelou que 6,2% da população brasileira têm algum tipo de
deficiência e dentre esse universo, 3,6% dos pesquisados têm deficiência
visual. O levantamento, feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) em parceria com o Ministério da Saúde, apontou ainda que 16%
dos deficientes visuais encontram algum tipo de dificuldade na hora de realizar
atividades habituais como ir à escola, trabalhar e brincar.
Os avanços da tecnologia vêm, no entanto, quebrando
paradigmas e melhorando a qualidade de vida dessa população. O reconhecimento
social alcançado nos últimos anos tirou as pessoas com deficiência (PcD) da
marginalidade, do ostracismo. A educação inclusiva ganhou legislação específica
e virou realidade, conferindo protagonismo às pessoas com deficiência. E a
tecnologia surgiu como parceira, como aliada dessa nova realidade, colaborando
na construção do que podemos chamar em muitos casos, de um novo modelo social.
Especificamente no caso da pessoa com deficiência visual, do
primeiro aparelho de Braille em 1852 para o DOSVOX atual, a tecnologia tem sido
importante para que a inclusão e o reconhecimento social realmente aconteçam e
o deficiente visual possa ver afirmada a sua cidadania. O técnico em assuntos
educacionais do Instituto Benjamin Constant (IBC), José Francisco de Souza, falou
em reportagem publicada pelo Globo Educação, sobre a importância do acesso aos
programas de computador para a socialização dos deficientes visuais. Na
oportunidade da reportagem, em 2011, ele trabalhava na capacitação de alunos no
IBC – referência no Brasil em educação de deficientes visuais –, e disse que no
tempo em que foi alfabetizado não havia as facilidades tecnológicas que existem
hoje.
O DOSVOX, um dos programas preferidos de José Francisco, é
utilizado numa sala de deficientes visuais na Escola Estadual José Conti, em
Igaraçu do Tietê, no interior do Estado de São Paulo. O DOSVOX, desenvolvido no
Núcleo de Computação Eletrônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
é um sistema que auxilia o deficiente visual a fazer uso de microcomputadores
da linha PC, através do uso de sintetizador de voz. É um software que na
avaliação de especialistas em educação inclusiva proporciona independência às
pessoas com deficiência visual e isso os motiva nas suas diversas atividades, como
na escola, no trabalho e até no dia a dia com outras pessoas.
Na reportagem “Jovens criam tecnologias para
acessibilidade”, que orienta essa atividade, a professora e
pesquisadora Mônica Pereira dos Santos, da UFRJ
(Universidade Federal do Rio de Janeiro) e membro da Associação Brasileira de
Pesquisadores em Educação Especial, destaca a importância das novas
tecnologias, mas chama a atenção para o fato de que a inclusão no caso de
pessoas com deficiência “é assunto de culturas e políticas públicas, para além
das práticas”. Para a pesquisadora, há a necessidade de uma mobilização da
comunidade escolar no sentido de rever posturas e valores, e também a
diminuição dos custos das ferramentas tecnológicas, para que fiquem acessíveis para
as instituições e famílias que precisam adquirir esses produtos. Outro aspecto
destacado pela pesquisadora Mônica Pereira é quanto à formação continuada de
professores, considerada essencial para que “muitas tecnologias não emperrem
nas salas de aula”.
Para a professora Jéssica Caroline Paes, da Escola Municipal
João Tuschi, de Igaraçu do Tietê, apesar do avanço na legislação sobre inclusão
verificada nos últimos anos e na produção de tecnologia específica, o caminho
ainda é muito longo para que as pessoas com deficiência se sintam realmente
incluídas. “Eu trabalho com deficiência intelectual e na Escola Estadual José
Conti tem sala de deficiente auditivo e deficiente visual. Eles têm tudo adaptado,
desde jogos, lousa e alfabeto em Braille, os computadores com DOSVOX, que
conversam com o aluno com deficiência visual e os livros de áudio-descrição”,
revelou.
Ao receber a visita de uma classe do quarto ano do ensino fundamental
municipal, a professora, no entanto, percebeu certa dificuldade inicial no
relacionamento dos alunos do fundamental com os alunos deficientes. “Na maioria
das vezes, as crianças não sabiam como agir, não por preconceito, mas porque elas
não têm isso, não estão acostumadas com essa interação”, afirmou.
Para Célia Magda Vernier, diretora da APAE (Associação de
Pais e Amigos dos Excepcionais) de Igaraçu do Tietê, existe muita tecnologia
disponível no mercado – programas, softwares e aplicativos – que podem ser
utilizados no processo de educação dos alunos da entidade e na melhoria da
qualidade de vida deles. No entanto, o alto custo dos produtos combinado com a
situação econômica da entidade e das famílias dos alunos, não permite
adquiri-los.