Dona Emília na fila da
farmácia ouvia atenta a conversa do jovem com a psicóloga que esperava
atendimento já no balcão.
– O que é angústia? –
indagou o jovem.
Além de Dona Emília,
outras pessoas que aguardavam atendimento passaram a prestar atenção na
conversa. Estavam, como curiosos, esperando a resposta.
A doutora respondeu sem
rodeios:
– Angústia é a mãe de
todos os sentimentos. A angústia é a mãe de todos os comportamentos.
Como chegara a sua vez, a
médica entrou pra conversar com o farmacêutico. O jovem que fizera a pergunta
ficou sem entender. Da expressão do adolescente denotava-se sua perplexidade. –
O que é angústia?
Dona Emília se lembrou que
lera a respeito do assunto. O psicanalista francês Jacques Lacan definia a
angústia como a sensação de que falta alguma coisa. Existe um objeto que está
perdido, e que você não sabe qual é. Você sai em busca desse objeto perdido e
esse movimento de deslocamento de coisas – eu vou buscando, buscando, buscando,
construindo –, é o que formou a nossa cultura.
Isso tudo que nós somos e
temos. A política, as regras, as leis, a psicologia, e a filosofia até hoje estão
atrás desse objeto perdido. E é um objeto que nós não vamos encontrar.
Dona Emília pensou, pensou
e achou melhor ficar quietinha na fila. E foi o que fez.

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