terça-feira, 12 de setembro de 2017

Dona Emília e a angústia

Dona Emília na fila da farmácia ouvia atenta a conversa do jovem com a psicóloga que esperava atendimento já no balcão.

– O que é angústia? – indagou o jovem.

Além de Dona Emília, outras pessoas que aguardavam atendimento passaram a prestar atenção na conversa. Estavam, como curiosos, esperando a resposta.

A doutora respondeu sem rodeios:

– Angústia é a mãe de todos os sentimentos. A angústia é a mãe de todos os comportamentos.

Como chegara a sua vez, a médica entrou pra conversar com o farmacêutico. O jovem que fizera a pergunta ficou sem entender. Da expressão do adolescente denotava-se sua perplexidade. – O que é angústia?

Dona Emília se lembrou que lera a respeito do assunto. O psicanalista francês Jacques Lacan definia a angústia como a sensação de que falta alguma coisa. Existe um objeto que está perdido, e que você não sabe qual é. Você sai em busca desse objeto perdido e esse movimento de deslocamento de coisas – eu vou buscando, buscando, buscando, construindo –, é o que formou a nossa cultura.

Isso tudo que nós somos e temos. A política, as regras, as leis, a psicologia, e a filosofia até hoje estão atrás desse objeto perdido. E é um objeto que nós não vamos encontrar.

Dona Emília pensou, pensou e achou melhor ficar quietinha na fila. E foi o que fez.

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